Eneatipo 7
(...) Para o E7, Ichazo usava
a palavra “ego-plan”, aludindo a uma excessiva tendência a
substituir a ação por planos ou projetos, a pensar em lugar de
fazer. Por mais que realmente os E7 possam às vezes serem
considerados uns sonhadores, o certo é que isso não é aplicável
a todos eles e, inclusive, nos casos em que o é, ainda ficaria pobre
como descrição do caráter.
O frade de Chaucer (nos
“Contos de Cantuária”), por exemplo, mais que um sonhador é um
encantador que busca e oferece doçura, e em algumas ocasiões o E7 é
um encantador encantado. A inclinação para a fantasia, própria do
sonhador, parece derivar-se de algo mais básico: uma busca do prazer
ou do conforto.
Poder-se-ia descrever o
caráter do E7 como urdidor, quer dizer, alguém que se defende
mediante a inteligência. Se o E6 necessita da inteligência para
saber o que fazer, como antídoto do medo e como meio para
neutralizar a dúvida interna, as pessoas E7 a usam para explicar e
manipular, para suscitar a admiração das pessoas e obter o seu
amor. Possuem uma grande capacidade para convencer aos demais, pois
não só explicam como também persuadem. Chaucer também retrata
humoristicamente esse traço de caráter, ao apresentar o arrazoado
do frade de que, para os que são incapazes de chorar, “mais do que
desolar-se e orar, é útil dar dinheiro aos pobres frades”.
Embora o termo que Ichazo
usava nos Estados Unidos fosse “ego-plan”, na primeira vez que em
que eu o ouvi apresentar a protoanálise no Chile, ele empregou a
palavra “charlatán”
(em português, o termo mais adequado seria falastrão- N.T.). No
princípio, não pude intender por que ele recorria a esse vocábulo,
nem o que tinha que ver a gula com a charlatanice, mas com o tempo
essa palavra passou a me parecer muito sugestiva. Certamente, o
charlatão utiliza muito as palavras e, como disse Karl Abraham sobre
a personalidade oral-receptiva: “Encontramos
neles, além de uma ânsia permanente para obter tudo, uma
necessidade constante de comunicar-se oralmente com as pessoas. Isso
produz um impulso irrefreável de falar, relacionado na maioria dos
casos com um sentir-se transbordante. As pessoas deste tipo têm a
impressão de que o seu caudal de pensamento é inesgotável, e
atribuem ao que dizem um poder especial ou um valor inusitado”.
Mas o E7 não é somente
alguém com uma grande facilidade verbal; ainda mais pertinente é a
conotação de fraudulência que tem a palavra “charlatán”
(de charlar,
falar muito - N.T.), e Chaucer nos faz saber sutilmente que seu frade
é um trapaceiro que se faz passar por um “nobre pilar da sua
ordem”, apesar do seu interesse pessoal não tão nobre (...).
O charlatão-falastrão
costuma ser alguém que fala sobre o que, em realidade, não conhece,
e pode inclusive chegar a enganar-se a si mesmo crendo que saber o
que, de fato, ignora. Associamos a charlatanice com o tipo do
pregoeiro de feira que vocifera as excelências de um velho unguento
egípcio de serpente ou alguma coisa do estilo para curar
enfermidades (talvez daí a expressão: “Falar mais que o homem da
cobra...” - N.T.). Em “Madame Bovary”, Flaubert nos legou uma
memorável descrição do E7 na figura de Monsieur Homais, o
farmacêutico, que convence ao complacente e inseguro Dr. Bovary (um
E9) para que opere a um pobre cavalariço... Com trágicas
consequências.
(...) O charlatão de
Flaubert tem um grande interesse pelos inventos e novas descobertas.
Quer se manter na vanguarda do conhecimento, o que mostra a tendência
das pessoas E7 a se converterem em intelectuais em certo modo
excêntrico, com um impulso exagerado por inventar ou descobrir
coisas novas, que podem ser desde algo razoável, como a concepção
de métodos para aproveitar a energia das marés até ideias tão
impossíveis quanto o moto-perpétuo. Vêm-me à mente, por exemplo,
pessoas que dedicam uma grande quantidade de esforços para conseguir
patentes insólitas. Por sua vez, esta exageração do caráter
revela um uso mais amplo da inteligência para ser extraordinário,
para elaborar um produto que sobressaia e assim, ter algo que dar.
Mas como, com frequência, os desejos de glória superam a capacidade
da pessoa para responder a eles, o resultado pode ser máquinas que
não funcionem ou unguentos que não curem. A presunção de ter
grandes conhecimentos forma claramente parte do desejo e da pretensão
de grandeza intelectual, mas seria mais exato dizer que há na psique
uma polaridade (ou, talvez, uma cisão) entre grandeza e pequenez.
Por fora, os E7 são suaves e nada arrogantes, antes aparentemente
modestos; e podemos sentir que em sua “humildade” querem que os
demais se apercebam de sua grandeza... E até da virtude especial que
existe em sua modéstia. Não reclamam para si nenhuma glória, mas
querem que suas ideias triunfem.
O feirante, que costuma
apregoar remédios, manifesta outra tendência geral nos E7: a de
adotar um papel de ajudador e preocupar-se com o alívio da dor. Em
ocasiões, este conjunto de traços pode encontrar saída na vocação
médica, especialmente no subtipo social, onde se destaca a tendência
a ser útil. Mas amiúde o E7 é generoso e hospitaleiro, o tipo de
pessoa que diria: “Estou às suas ordens”, “Me chame quando
quiser”, “Fique com meu número de telefone”. Isso pode ser
tanto uma sedução inconsciente como uma ideia consciente de
intercâmbio: a expectativa oportunista de que deixando o outro em
dívida se possa esperar a reciprocidade.
No frade de Chaucer não se
sobressaem com traços predominantes nem a evitação da concretude,
nem a atitude de ajuda, mas antes aquela combinação de gosto pelo
prazer e interesse próprio característica do subtipo de
conservação. E ainda que todo E7 possa identificar-se com os três
subtipos (posto que todos eles se dão na sua psique como
subpersonalidades), existem entre eles oposições, sob alguns
aspectos. Em particular, há uma polaridade entre o idealismo e a
falta deste, entre a credulidade e a desconfiança cínica, entre o
voo do sonhador e o materialismo desmedido.
(...) Aqui vemos alguns
traços gerais que nos dão a ideia de um “playboy” hedonista
alegre e de trato agradável. Aparte a referência à falta de
seriedade e ao desembraço, o fragmento acima reflete a origem
esquizoide (E5) do gozador (E7): não se trata só de uma questão de
evitar os assuntos pesados e procurar o prazer, mas antes de uma
desconexão do sentimento.
(...) Um traço fundamental
do E7 é a permissividade ou indulgência, que eu considero ser a
essência da gula. E como esta autoindulgência seria impossível com
a imposição do superego ou submetendo-se à autoridade, este
caráter é rebelde, ainda que às vezes de maneira suave e
diplomática. Os E7 têm uma aparência gentil, doce, amável e
amistosa, mas não fazem muito caso da autoridade e pressupõe
implicitamente que a autoridade é má. Não se engajam em uma luta
contra a autoridade, como o E6 ou o E8. Simplesmente, fazem caso
omisso, não necessitam dela, como se tivessem perdido sua fé na
autoridade. Assim, não creem na limitação dos seus próprios
desejos e se permitem uma ampla liberdade, tanto a si mesmos quanto
aos demais. Seu lema é “viva e deixe viver”.
Outro traço do E7 igualmente
importante que ainda não mencionei é a rebeldia, não uma rebeldia
confrontativa ou direta, mas dissimulada e manifestada geralmente em
forma de oposição ao convencional. Obviamente, esta rebeldia está
em relação dinâmica com a indulgência com os desejos: a gula não
poderia existir sem a oposição às restrições sociais que
restringem seus interesses. A rebeldia está relacionada também coma
a busca de alternativas utópicas ou remotas ao convencional e o
ordinário. E o que é mais importante, há uma rebeldia inconsciente
que impede os E7 de desfrutarem o ordinário e os escraviza a
procurar o remoto em nome da liberdade.
Em “La
Estructura de los Eneatipos”
defini a posição do E7 como um “oportunista idealista”, e com
respeito à variedade mais realista desse caráter, poderia ser mais
acertado falar de um “pseudoidealismo”. Mas seja como for,
ressalte-se o aspecto oportunista ou o idealista, a ocultação dos
interesses próprios por trás de alguma forma de camaradagem recorda
a formação reativa, como ocorre no Tartufo de Molière., que é um
parasita disfarçado de santo.
(...) No seu livro “El
Reverdecer de América”,
publicado nos anos setenta, Charles Reich fala de três formas
sucessivas de consciência norte-americana. É fácil reconhecer nas
primeiras descrições o predomínio inicial do estilo puritano (E1)
da Nova Inglaterra e o E3 impelido pelo desejo de êxito. Ainda que
interprete a mudança cultural dos anos setenta apenas como uma
evolução, qualquer um que conheça os estilos de personalidade
poderá apreciar facilmente que a New
Age se anunciava
com um espírito claramente E7, e continua levando o espírito desta
personalidade.
(...) É óbvio que a mudança
cultural que escapa do autoritarismo e o recente ressurgimento
psicoespiritual acenam com uma promessa, mas as numerosas anedotas
que correm sobre o novo mercado espiritual e o novo narcisismo estão
inspiradas por uma nova patologia social, que se corresponde com o
modelo de personalidade do indivíduo falastrão... sonhador...
oportunista.
(...) o E7 é o eneatipo mais
divertido ou produz mais piadas. Portanto é lógico que eu termine
esta seção com uma. Eu a escutei no Rio de Janeiro, onde
precisamente o caráter local é o E7. A graça da piada é o traço
E7 de “não criar problemas” e sua insistência em que “tudo
está bem”, uma postura cômoda que desemboca na evitação da dor
psicológica.
Uma mulher, muito nervosa,
diz a seu marido que acaba de saber que a empregada está grávida. O
marido responde: “Isso é problema dela”. A mulher insiste: Mas
foi você que a engravidou! O marido responde: Isso é problema meu.
Então, pergunta a mulher: “E eu, como é que você acha que estou
me sentindo? ”. Ao que o marido responde tranquilamente: “Isso é
problema seu! ”.
Uma atitude muito cômoda! Os
E7 são muito amistosos e prestativos, mas tendem a evitar os laços
dos compromissos e não querem saber de incômodos.