sábado, 23 de setembro de 2017

Eneatipo 3


Ichazo chamou ao caráter situado no ponto 3 do eneagrama “ego-go”, em referência ao seu impulso de alcançar metas e à sua orientação ativa. Pffeifer caricaturou muito bem este eneatipo em uma tira de quadrinhos que mostrava um homem corpulento realizando uma série de atividades ao longo do dia. Em cada quadrinho se repetia sobre a imagem uma palavra que dá a entender o seu ímpeto: primeiro, “nadar, nadar, nadar”; depois, “bronzear-se, bronzear-se, bronzear-se”; depois “jogar, jogar, jogar”; em continuação, “comer, comer, comer”; mais tarde, com um terno elegante e um copo na mão, “festa, festa, festa”; e por último, “descansar, descansar, descansar”. Isso tudo sugere, é claro, que esse caráter percebe até mesmo o relaxamento como um meio para um fim, convertendo-o assim numa tarefa e, de certo modo, num esforço.
Contudo o E3 não é, necessariamente, antes de tudo um perseguidor de resultados. Ao menos em alguns casos, não procura o êxito mediante um rendimento excelente, mas sim através do atrativo sexual. A vitória que interessa ao subtipo sexual é a do “sex-appeal” e da beleza, não a do dinheiro e do prestígio, o que não significa que, para a obtenção dos seus fins, sejam menos competitivos que um executivo em assuntos de trabalho. (...)
Encontramos os retratos de ficção melhor elaborados do caráter vaidoso na astuta e manipuladora Becky Sharp, que aparece na “Feira das Vaidades” de Willian Tackeray, e no personagem de Emma Bovary, em “Madame Bovary” de Gustave Flaubert. (...)
Creio que as declarações mais originais a respeito do nosso E3 seja as de Erich Fromm, que cunhou o conceito de orientação mercantilista da personalidade. Com isso, não se referia somente à personalidade de quem se interessa por dinheiro, mas antes àquela dos que, além de comercializar bens ou serviços, vendem também a sua própria personalidade no mercado das personalidades. Um médico, por exemplo, terá muito mais possibilidade de reconhecimento se mostrar esse tipo especial de personalidade na qual as pessoas possam confiar: seu êxito será aumentado se ele se apresentar como uma pessoa correta e eficiente em que as pessoas possam depositar a sua tranquilidade.
Há muito disso no caráter estadunidense. Assim como o mercado de bens de consumo se apoia na publicidade, o êxito pessoal é realçado por um propagandismo sutil (ou nem tão sutil) de uma aparência própria estudada e uma atitude expressamente agradável. Isso implica numa disposição de caracterológica na qual a pessoa experiencia a si mesma como uma mercadoria. Os valores pessoais coincidem demasiadamente com os mercantis, ficando os valores intrínsecos eclipsados por outros que foram tomados de empréstimo: o que está na moda, o que todo mundo aprova, o que se vende.
A paixão pelo cultivo de uma boa imagem recebe com frequência a pecha de “narcisismo”, mas, de um modo mais comum ou coloquial, podemos chamá-la de vaidade. Consiste em uma motivação de brilhar, de chamar a atenção, seja desenvolvendo o atrativo sexual, seja alcançando objetivos e êxitos. Quando se trata deste último caso, é característico do E3 basear o seu êxito em critérios de valor bem estabelecidos, universalmente aceitos. Diferentemente das pessoas do E2, que não necessitam convencer o mundo do seu valor, porque a opinião que têm de si mesmos não pode ser mais exaltada, os E3 realizam grandes esforços. São ativos, atentos e lutadores, ao ponto de serem frequentes entre eles as alterações da saúde por estresse e uma pressão sanguínea alta. Isto pode se dar no terreno dos esportes, da vida social ou em qualquer outro campo. Na escola, obtém as melhores notas. São pessoas eficientes. Fazem bem as coisas. Do mesmo modo que quando crianças atraíram a atenção dos seus pais, depois de adultos se esforçam em destacar-se perante o mundo. A eficácia da prática do E3 é uma alternativa distinta do bom comportamento do E1: se o “portar-se bem” deste baseia-se em um ideal moralista, para o E3 trata-se de manter uma conduta útil e um rendimento superior. Como se esforçam tanto em alcançar um nível de resultados deslumbrante, investem uma grande quantidade de energia em ir de lá para cá, em fazer uma infinidade de coisas; em contraposição, lhes é difícil estar consigo mesmos. Têm muito pouca capacidade para a introspecção e o silêncio interior. Precisam permanecer fazendo algo para preencher o tempo e não se concedem tempo para estar consigo mesmos.
Outro aspecto do E3 é o brilhantismo social, que se torna a chave para a sua ascensão na escala social, como tão bem analisa Thackeray em sua “novela sem herói”, na qual mostra Becky Sharp e seu anelo de melhorar de posição social. Nesta variedade social do E3, está especialmente desenvolvida a habilidade de saber aproximar-se das pessoas, e o próprio nome “Sharp” (agudo, afiado), sugere o seu tipo de personalidade: fria e calculista, precisa e direta ao falar, e com uma mente rápida, ágil e organizada.
Com frequência, os executivos e os homens de negócio necessitam ser assim: pessoas diligentes, atentas ao detalhe, observadoras, sorridentes, confiáveis e eficazes que, ademais, possuem um sentido de distribuição do tempo muito preciso.
Generalizando, podemos dizer que os eneatipos 2, 3 e 4 são os caracteres mais emocionais do eneagrama. Mas, se os falsos sentimentos do E2 são positivos e os do E4 negativos, os do E3 são neutros. Assim, o E3 mais patológico será o menos emocional dos três, pois as considerações racionais e práticas eclipsam sua vida emocional. Apenas quando estão mais desenvolvidos e sãos permitem que aflore seu lado emocional, já que não necessitam mais um controle permanente, chegando a transcender assim a falsidade emocional implícita em sua tácita afirmação como personagens sorridentes e seguros.
Em termos gerais, podemos afirmar que os indivíduos E3 vivem uma polaridade de insegurança/confiança em si mesmos. Não podemos qualificá-los de inseguros (a insegurança é muito mais característica do E5 ou de um subtipo do E6). As pessoas E3 reconhecem a sua insegurança, mas também sabem disfarçá-la e dar a impressão de autoconfiança. Sabem como seguir adiante.
Aprenderem muito cedo na vida a cuidar deles mesmos e desenvolveram uma grande autonomia. Sabem proteger os seus interesses. Em consequência, têm uma implícita desconfiança de se as coisas possam correr bem se se desenvolverem naturalmente, sem estar sob os seus desígnios.
Embora otimistas, se trata de um otimismo baseado na sua própria capacidade de manejo das coisas, não é o típico otimismo que se abandona à boa sorte ou se despreocupa, delegando para os outros. (....)
Não é surpreendente que os indivíduos E3 possam ser bons vendedores e anunciantes. Sabem manipular a sua própria imagem, mas também conhecem a forma de produzir um efeito sobre a imagem dos outros, seja para elogiá-las como para denegri-las. Possuem uma grande habilidade para ferir ou difamar, sem que pareça que o fizeram intencionalmente (como é o caso dos “cumprimentos venenosos”) Esta é a forma de agressão típica da alta sociedade, como por exemplo, da madame que saúda a outra “Você está ótima, querida! Que figura tão maravilhosa! Ninguém iria adivinhar a sua idade!”.
Sabem como deixar escapar um comentário ácido disfarçado de cumprimento, sempre conservando, claro está, as boas formas do respeito às normas sociais. Conhecem a maneira de deslizar uma agressão viperina capaz de ferir profundamente a quem a recebe, mas invisível aos olhos de qualquer espectador. Dominam a arte de por o dedo na ferida, de produzir o dano mais profundo, sem “descer do salto”.
Vista de fora, a superficialidade do eneatipo 3 é facilmente perceptível. Nota-se a dissimulação e parece existir uma espécie de “qualidade plástica”, como uma fachada sem profundidade. A aparência mantém ocupada a superfície da pessoa que, ao estar tão dependente da perfeição formal e do que os demais aprovam ou desaprovam, perde o contato com sua própria profundidade.
Se esse caráter parecia predominar na época de La Bruyère e no ambiente de Versailles, igualmente prevalece hoje em dia nos Estados Unidos onde, aparentemente, se produziu nos “loucos anos vinte” um giro completo da personalidade modal, passando de um caráter conservador e puritano (E1) a uma maneira de ser E3: altamente competitiva e acelerada e “voltada para o exterior”. Esta última expressão, criada pelo sociólogo David Riesman, da Universidade de Harvard, é sem dúvida uma acertada descrição desse tipo de pessoa, sempre predisposta a somar-se à opinião pública e a adotar como seu o gosto que esteja na moda. A pessoa do tipo E3 é extrovertida e não atende tanto aos ideais ou à tradição, mas antes às possibilidades de aprovação. Não lhes motiva tanto a sua plena satisfação, nem sequer a satisfação dos seus gostos, posto que o importante é ser aprovado ou admirado. Leva a religião que professa ou as opiniões que expressa como roupagens nas quais se envolve e, por fim, a aparência eclipsa o ser. O estereótipo das bonecas, como Barbie ou Suzy, remete ao E3.


 O predomínio atual do caráter E3 nos Estados Unidos fica patente em numerosas manifestações, que vão desde os supermercados e redes de “fast-food”, à indústria publicitária de Hollywood, passando pela implantação de uma tecnocracia (isto é, a instauração dos valores tecnológicos, em detrimento das considerações de ordem humana e ecológica). Todavia, talvez a consequência mais grave dessa personalidade “mercantilista” seja a rendição atual do mundo aos valores de mercado e às razões econômicas.

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