Eneatipo 3
Ichazo chamou ao caráter
situado no ponto 3 do eneagrama “ego-go”, em referência ao seu
impulso de alcançar metas e à sua orientação ativa. Pffeifer
caricaturou muito bem este eneatipo em uma tira de quadrinhos que
mostrava um homem corpulento realizando uma série de atividades ao
longo do dia. Em cada quadrinho se repetia sobre a imagem uma palavra
que dá a entender o seu ímpeto: primeiro, “nadar, nadar, nadar”;
depois, “bronzear-se, bronzear-se, bronzear-se”; depois “jogar,
jogar, jogar”; em continuação, “comer, comer, comer”; mais
tarde, com um terno elegante e um copo na mão, “festa, festa,
festa”; e por último, “descansar, descansar, descansar”. Isso
tudo sugere, é claro, que esse caráter percebe até mesmo o
relaxamento como um meio para um fim, convertendo-o assim numa tarefa
e, de certo modo, num esforço.
Contudo o E3 não é,
necessariamente, antes de tudo um perseguidor de resultados. Ao menos
em alguns casos, não procura o êxito mediante um rendimento
excelente, mas sim através do atrativo sexual. A vitória que
interessa ao subtipo sexual é a do “sex-appeal”
e da beleza, não a do dinheiro e do prestígio, o que não significa
que, para a obtenção dos seus fins, sejam menos competitivos que um
executivo em assuntos de trabalho. (...)
Encontramos os retratos de
ficção melhor elaborados do caráter vaidoso na astuta e
manipuladora Becky Sharp, que aparece na “Feira
das Vaidades” de
Willian Tackeray, e no personagem de Emma Bovary, em “Madame
Bovary” de
Gustave Flaubert. (...)
Creio que as declarações
mais originais a respeito do nosso E3 seja as de Erich Fromm, que
cunhou o conceito de orientação mercantilista da personalidade. Com
isso, não se referia somente à personalidade de quem se interessa
por dinheiro, mas antes àquela dos que, além de comercializar bens
ou serviços, vendem também a sua própria personalidade no mercado
das personalidades. Um médico, por exemplo, terá muito mais
possibilidade de reconhecimento se mostrar esse tipo especial de
personalidade na qual as pessoas possam confiar: seu êxito será
aumentado se ele se apresentar como uma pessoa correta e eficiente em
que as pessoas possam depositar a sua tranquilidade.
Há muito disso no caráter
estadunidense. Assim como o mercado de bens de consumo se apoia na
publicidade, o êxito pessoal é realçado por um propagandismo sutil
(ou nem tão sutil) de uma aparência própria estudada e uma atitude
expressamente agradável. Isso implica numa disposição de
caracterológica na qual a pessoa experiencia a si mesma como uma
mercadoria. Os valores pessoais coincidem demasiadamente com os
mercantis, ficando os valores intrínsecos eclipsados por outros que
foram tomados de empréstimo: o que está na moda, o que todo mundo
aprova, o que se vende.
A paixão pelo cultivo de uma
boa imagem recebe com frequência a pecha de “narcisismo”, mas,
de um modo mais comum ou coloquial, podemos chamá-la de vaidade.
Consiste em uma motivação de brilhar, de chamar a atenção, seja
desenvolvendo o atrativo sexual, seja alcançando objetivos e êxitos.
Quando se trata deste último caso, é característico do E3 basear o
seu êxito em critérios de valor bem estabelecidos, universalmente
aceitos. Diferentemente das pessoas do E2, que não necessitam
convencer o mundo do seu valor, porque a opinião que têm de si
mesmos não pode ser mais exaltada, os E3 realizam grandes esforços.
São ativos, atentos e lutadores, ao ponto de serem frequentes entre
eles as alterações da saúde por estresse e uma pressão sanguínea
alta. Isto pode se dar no terreno dos esportes, da vida social ou em
qualquer outro campo. Na escola, obtém as melhores notas. São
pessoas eficientes. Fazem bem as coisas. Do mesmo modo que quando
crianças atraíram a atenção dos seus pais, depois de adultos se
esforçam em destacar-se perante o mundo. A eficácia da prática do
E3 é uma alternativa distinta do bom comportamento do E1: se o
“portar-se bem” deste baseia-se em um ideal moralista, para o E3
trata-se de manter uma conduta útil e um rendimento superior. Como
se esforçam tanto em alcançar um nível de resultados deslumbrante,
investem uma grande quantidade de energia em ir de lá para cá, em
fazer uma infinidade de coisas; em contraposição, lhes é difícil
estar consigo mesmos. Têm muito pouca capacidade para a introspecção
e o silêncio interior. Precisam permanecer fazendo algo para
preencher o tempo e não se concedem tempo para estar consigo mesmos.
Outro aspecto do E3 é o
brilhantismo social, que se torna a chave para a sua ascensão na
escala social, como tão bem analisa Thackeray em sua “novela sem
herói”, na qual mostra Becky Sharp e seu anelo de melhorar de
posição social. Nesta variedade social do E3, está especialmente
desenvolvida a habilidade de saber aproximar-se das pessoas, e o
próprio nome “Sharp” (agudo, afiado), sugere o seu tipo de
personalidade: fria e calculista, precisa e direta ao falar, e com
uma mente rápida, ágil e organizada.
Com frequência, os
executivos e os homens de negócio necessitam ser assim: pessoas
diligentes, atentas ao detalhe, observadoras, sorridentes, confiáveis
e eficazes que, ademais, possuem um sentido de distribuição do
tempo muito preciso.
Generalizando, podemos dizer
que os eneatipos 2, 3 e 4 são os caracteres mais emocionais do
eneagrama. Mas, se os falsos sentimentos do E2 são positivos e os do
E4 negativos, os do E3 são neutros. Assim, o E3 mais patológico
será o menos emocional dos três, pois as considerações racionais
e práticas eclipsam sua vida emocional. Apenas quando estão mais
desenvolvidos e sãos permitem que aflore seu lado emocional, já que
não necessitam mais um controle permanente, chegando a transcender
assim a falsidade emocional implícita em sua tácita afirmação
como personagens sorridentes e seguros.
Em termos gerais, podemos
afirmar que os indivíduos E3 vivem uma polaridade de
insegurança/confiança em si mesmos. Não podemos qualificá-los de
inseguros (a insegurança é muito mais característica do E5 ou de
um subtipo do E6). As pessoas E3 reconhecem a sua insegurança, mas
também sabem disfarçá-la e dar a impressão de autoconfiança.
Sabem como seguir adiante.
Aprenderem muito cedo na vida
a cuidar deles mesmos e desenvolveram uma grande autonomia. Sabem
proteger os seus interesses. Em consequência, têm uma implícita
desconfiança de se as coisas possam correr bem se se desenvolverem
naturalmente, sem estar sob os seus desígnios.
Embora otimistas, se trata de
um otimismo baseado na sua própria capacidade de manejo das coisas,
não é o típico otimismo que se abandona à boa sorte ou se
despreocupa, delegando para os outros. (....)
Não é surpreendente que os
indivíduos E3 possam ser bons vendedores e anunciantes. Sabem
manipular a sua própria imagem, mas também conhecem a forma de
produzir um efeito sobre a imagem dos outros, seja para elogiá-las
como para denegri-las. Possuem uma grande habilidade para ferir ou
difamar, sem que pareça que o fizeram intencionalmente (como é o
caso dos “cumprimentos venenosos”) Esta é a forma de agressão
típica da alta sociedade, como por exemplo, da madame que saúda a
outra “Você está ótima, querida! Que figura tão maravilhosa!
Ninguém iria adivinhar a sua idade!”.
Sabem como deixar escapar um
comentário ácido disfarçado de cumprimento, sempre conservando,
claro está, as boas formas do respeito às normas sociais. Conhecem
a maneira de deslizar uma agressão viperina capaz de ferir
profundamente a quem a recebe, mas invisível aos olhos de qualquer
espectador. Dominam a arte de por o dedo na ferida, de produzir o
dano mais profundo, sem “descer do salto”.
Vista de fora, a
superficialidade do eneatipo 3 é facilmente perceptível. Nota-se a
dissimulação e parece existir uma espécie de “qualidade
plástica”, como uma fachada sem profundidade. A aparência mantém
ocupada a superfície da pessoa que, ao estar tão dependente da
perfeição formal e do que os demais aprovam ou desaprovam, perde o
contato com sua própria profundidade.
Se esse caráter parecia
predominar na época de La Bruyère e no ambiente de Versailles,
igualmente prevalece hoje em dia nos Estados Unidos onde,
aparentemente, se produziu nos “loucos anos vinte” um giro
completo da personalidade modal, passando de um caráter conservador
e puritano (E1) a uma maneira de ser E3: altamente competitiva e
acelerada e “voltada para o exterior”. Esta última expressão,
criada pelo sociólogo David Riesman, da Universidade de Harvard, é
sem dúvida uma acertada descrição desse tipo de pessoa, sempre
predisposta a somar-se à opinião pública e a adotar como seu o
gosto que esteja na moda. A pessoa do tipo E3 é extrovertida e não
atende tanto aos ideais ou à tradição, mas antes às
possibilidades de aprovação. Não lhes motiva tanto a sua plena
satisfação, nem sequer a satisfação dos seus gostos, posto que o
importante é ser aprovado ou admirado. Leva a religião que professa
ou as opiniões que expressa como roupagens nas quais se envolve e,
por fim, a aparência eclipsa o ser. O estereótipo das bonecas, como
Barbie ou Suzy, remete ao E3.
O predomínio atual do
caráter E3 nos Estados Unidos fica patente em numerosas
manifestações, que vão desde os supermercados e redes de
“fast-food”,
à indústria publicitária de Hollywood, passando pela implantação
de uma tecnocracia (isto é, a instauração dos valores
tecnológicos, em detrimento das considerações de ordem humana e
ecológica). Todavia, talvez a consequência mais grave dessa
personalidade “mercantilista” seja a rendição atual do mundo
aos valores de mercado e às razões econômicas.
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