sábado, 23 de setembro de 2017

Eneatipo 7
(...) Para o E7, Ichazo usava a palavra “ego-plan”, aludindo a uma excessiva tendência a substituir a ação por planos ou projetos, a pensar em lugar de fazer. Por mais que realmente os E7 possam às vezes serem considerados uns sonhadores, o certo é que isso não é aplicável a todos eles e, inclusive, nos casos em que o é, ainda ficaria pobre como descrição do caráter.
O frade de Chaucer (nos “Contos de Cantuária”), por exemplo, mais que um sonhador é um encantador que busca e oferece doçura, e em algumas ocasiões o E7 é um encantador encantado. A inclinação para a fantasia, própria do sonhador, parece derivar-se de algo mais básico: uma busca do prazer ou do conforto.
Poder-se-ia descrever o caráter do E7 como urdidor, quer dizer, alguém que se defende mediante a inteligência. Se o E6 necessita da inteligência para saber o que fazer, como antídoto do medo e como meio para neutralizar a dúvida interna, as pessoas E7 a usam para explicar e manipular, para suscitar a admiração das pessoas e obter o seu amor. Possuem uma grande capacidade para convencer aos demais, pois não só explicam como também persuadem. Chaucer também retrata humoristicamente esse traço de caráter, ao apresentar o arrazoado do frade de que, para os que são incapazes de chorar, “mais do que desolar-se e orar, é útil dar dinheiro aos pobres frades”.
Embora o termo que Ichazo usava nos Estados Unidos fosse “ego-plan”, na primeira vez que em que eu o ouvi apresentar a protoanálise no Chile, ele empregou a palavra “charlatán” (em português, o termo mais adequado seria falastrão- N.T.). No princípio, não pude intender por que ele recorria a esse vocábulo, nem o que tinha que ver a gula com a charlatanice, mas com o tempo essa palavra passou a me parecer muito sugestiva. Certamente, o charlatão utiliza muito as palavras e, como disse Karl Abraham sobre a personalidade oral-receptiva: “Encontramos neles, além de uma ânsia permanente para obter tudo, uma necessidade constante de comunicar-se oralmente com as pessoas. Isso produz um impulso irrefreável de falar, relacionado na maioria dos casos com um sentir-se transbordante. As pessoas deste tipo têm a impressão de que o seu caudal de pensamento é inesgotável, e atribuem ao que dizem um poder especial ou um valor inusitado”.
Mas o E7 não é somente alguém com uma grande facilidade verbal; ainda mais pertinente é a conotação de fraudulência que tem a palavra “charlatán” (de charlar, falar muito - N.T.), e Chaucer nos faz saber sutilmente que seu frade é um trapaceiro que se faz passar por um “nobre pilar da sua ordem”, apesar do seu interesse pessoal não tão nobre (...).
O charlatão-falastrão costuma ser alguém que fala sobre o que, em realidade, não conhece, e pode inclusive chegar a enganar-se a si mesmo crendo que saber o que, de fato, ignora. Associamos a charlatanice com o tipo do pregoeiro de feira que vocifera as excelências de um velho unguento egípcio de serpente ou alguma coisa do estilo para curar enfermidades (talvez daí a expressão: “Falar mais que o homem da cobra...” - N.T.). Em “Madame Bovary”, Flaubert nos legou uma memorável descrição do E7 na figura de Monsieur Homais, o farmacêutico, que convence ao complacente e inseguro Dr. Bovary (um E9) para que opere a um pobre cavalariço... Com trágicas consequências.
(...) O charlatão de Flaubert tem um grande interesse pelos inventos e novas descobertas. Quer se manter na vanguarda do conhecimento, o que mostra a tendência das pessoas E7 a se converterem em intelectuais em certo modo excêntrico, com um impulso exagerado por inventar ou descobrir coisas novas, que podem ser desde algo razoável, como a concepção de métodos para aproveitar a energia das marés até ideias tão impossíveis quanto o moto-perpétuo. Vêm-me à mente, por exemplo, pessoas que dedicam uma grande quantidade de esforços para conseguir patentes insólitas. Por sua vez, esta exageração do caráter revela um uso mais amplo da inteligência para ser extraordinário, para elaborar um produto que sobressaia e assim, ter algo que dar. Mas como, com frequência, os desejos de glória superam a capacidade da pessoa para responder a eles, o resultado pode ser máquinas que não funcionem ou unguentos que não curem. A presunção de ter grandes conhecimentos forma claramente parte do desejo e da pretensão de grandeza intelectual, mas seria mais exato dizer que há na psique uma polaridade (ou, talvez, uma cisão) entre grandeza e pequenez. Por fora, os E7 são suaves e nada arrogantes, antes aparentemente modestos; e podemos sentir que em sua “humildade” querem que os demais se apercebam de sua grandeza... E até da virtude especial que existe em sua modéstia. Não reclamam para si nenhuma glória, mas querem que suas ideias triunfem.
O feirante, que costuma apregoar remédios, manifesta outra tendência geral nos E7: a de adotar um papel de ajudador e preocupar-se com o alívio da dor. Em ocasiões, este conjunto de traços pode encontrar saída na vocação médica, especialmente no subtipo social, onde se destaca a tendência a ser útil. Mas amiúde o E7 é generoso e hospitaleiro, o tipo de pessoa que diria: “Estou às suas ordens”, “Me chame quando quiser”, “Fique com meu número de telefone”. Isso pode ser tanto uma sedução inconsciente como uma ideia consciente de intercâmbio: a expectativa oportunista de que deixando o outro em dívida se possa esperar a reciprocidade.
No frade de Chaucer não se sobressaem com traços predominantes nem a evitação da concretude, nem a atitude de ajuda, mas antes aquela combinação de gosto pelo prazer e interesse próprio característica do subtipo de conservação. E ainda que todo E7 possa identificar-se com os três subtipos (posto que todos eles se dão na sua psique como subpersonalidades), existem entre eles oposições, sob alguns aspectos. Em particular, há uma polaridade entre o idealismo e a falta deste, entre a credulidade e a desconfiança cínica, entre o voo do sonhador e o materialismo desmedido.
(...) Aqui vemos alguns traços gerais que nos dão a ideia de um “playboy” hedonista alegre e de trato agradável. Aparte a referência à falta de seriedade e ao desembraço, o fragmento acima reflete a origem esquizoide (E5) do gozador (E7): não se trata só de uma questão de evitar os assuntos pesados e procurar o prazer, mas antes de uma desconexão do sentimento.
(...) Um traço fundamental do E7 é a permissividade ou indulgência, que eu considero ser a essência da gula. E como esta autoindulgência seria impossível com a imposição do superego ou submetendo-se à autoridade, este caráter é rebelde, ainda que às vezes de maneira suave e diplomática. Os E7 têm uma aparência gentil, doce, amável e amistosa, mas não fazem muito caso da autoridade e pressupõe implicitamente que a autoridade é má. Não se engajam em uma luta contra a autoridade, como o E6 ou o E8. Simplesmente, fazem caso omisso, não necessitam dela, como se tivessem perdido sua fé na autoridade. Assim, não creem na limitação dos seus próprios desejos e se permitem uma ampla liberdade, tanto a si mesmos quanto aos demais. Seu lema é “viva e deixe viver”.
Outro traço do E7 igualmente importante que ainda não mencionei é a rebeldia, não uma rebeldia confrontativa ou direta, mas dissimulada e manifestada geralmente em forma de oposição ao convencional. Obviamente, esta rebeldia está em relação dinâmica com a indulgência com os desejos: a gula não poderia existir sem a oposição às restrições sociais que restringem seus interesses. A rebeldia está relacionada também coma a busca de alternativas utópicas ou remotas ao convencional e o ordinário. E o que é mais importante, há uma rebeldia inconsciente que impede os E7 de desfrutarem o ordinário e os escraviza a procurar o remoto em nome da liberdade.
Em “La Estructura de los Eneatipos” defini a posição do E7 como um “oportunista idealista”, e com respeito à variedade mais realista desse caráter, poderia ser mais acertado falar de um “pseudoidealismo”. Mas seja como for, ressalte-se o aspecto oportunista ou o idealista, a ocultação dos interesses próprios por trás de alguma forma de camaradagem recorda a formação reativa, como ocorre no Tartufo de Molière., que é um parasita disfarçado de santo.
(...) No seu livro “El Reverdecer de América”, publicado nos anos setenta, Charles Reich fala de três formas sucessivas de consciência norte-americana. É fácil reconhecer nas primeiras descrições o predomínio inicial do estilo puritano (E1) da Nova Inglaterra e o E3 impelido pelo desejo de êxito. Ainda que interprete a mudança cultural dos anos setenta apenas como uma evolução, qualquer um que conheça os estilos de personalidade poderá apreciar facilmente que a New Age se anunciava com um espírito claramente E7, e continua levando o espírito desta personalidade.
(...) É óbvio que a mudança cultural que escapa do autoritarismo e o recente ressurgimento psicoespiritual acenam com uma promessa, mas as numerosas anedotas que correm sobre o novo mercado espiritual e o novo narcisismo estão inspiradas por uma nova patologia social, que se corresponde com o modelo de personalidade do indivíduo falastrão... sonhador... oportunista.
(...) o E7 é o eneatipo mais divertido ou produz mais piadas. Portanto é lógico que eu termine esta seção com uma. Eu a escutei no Rio de Janeiro, onde precisamente o caráter local é o E7. A graça da piada é o traço E7 de “não criar problemas” e sua insistência em que “tudo está bem”, uma postura cômoda que desemboca na evitação da dor psicológica.
Uma mulher, muito nervosa, diz a seu marido que acaba de saber que a empregada está grávida. O marido responde: “Isso é problema dela”. A mulher insiste: Mas foi você que a engravidou! O marido responde: Isso é problema meu. Então, pergunta a mulher: “E eu, como é que você acha que estou me sentindo? ”. Ao que o marido responde tranquilamente: “Isso é problema seu! ”.
Uma atitude muito cômoda! Os E7 são muito amistosos e prestativos, mas tendem a evitar os laços dos compromissos e não querem saber de incômodos.











Nenhum comentário:

Postar um comentário